Gravultura
Deparava-me há alguns anos com a capacidade de conseguir marcar a diferença de que já existe no universo das artes plásticas, mas sobretudo pela técnica utilizada, ou porventura conseguir um estilo próprio, algo verdadeiramente original. Não é essa suprema ambição de quem cria arte?
Ser original, diferente de todos os outros, independentemente da condição social, económica ou académica, é a verdadeira matriz que inspira os artistas vindouros , ao longo de gerações sucessivas.
Talvez não passasse duma ficção minha, duma utopia do tamanho da arte, mas não é a própria vida uma utopia, senão conseguirmos concretizar os nossos sonhos?
Verifiquei que as várias técnicas de gravura estão interligadas ao tipo de matriz usada. Por conseguinte, o segredo estava na elaboração duma matriz inédita, que permitisse impressões únicas e originais.
Depois de várias experiências em linogravura, decidi que tinha de tentar criar uma matriz que me permitisse adquirir relevo na folha impressa, de forma a conseguir perspetivas consoante os vários níveis de relevo.
Após visualizar milhares de gravuras, desde as que são feitas pelos artistas até ás dos mestres, sejam portuguesas, chinesas ou de qualquer outra parte do mundo, antigas ou modernas, em todas não encontrei o tipo de matriz que utilizei para as minhas gravuras, felizmente, pois isso motivou-me a continuar a trabalhar neste tipo de matrizes.
A solução passou inevitavelmente por criar uma matriz em baixo relevo, com uma estrutura de aço e argamassa, transformando-se assim a matriz numa escultura.
Consegui finalmente as gravuras que pretendia, nunca antes produzidas, em que a própria folha de papel admite o relevo não só das linhas do desenho, executadas com arame inoxidável, mas também as manchas das superfícies desniveladas existentes na matriz, construída em argamassa de cimento.
Para minha surpresa, constatei que o papel admitia além da primeira tintagem, outras tintas anteriormente aplicadas, mas mais curioso ainda, a própria argamassa começou a aderir ao papel, como se tratasse duma pele, duma espécie de crosta.
Após várias impressões utilizando matrizes realizadas com as características mencionadas, faltava agora batizar este tipo de técnica. A pretensão de aproximar a gravura à escultura, para depois utilizar a escultura para a gravura levou-me a fundir as duas palavras, resultando na palavra gravultura.
ANDRADA 2014